Fusões acidentais - Brasil S/A
8 de Junho de 2009 às 00:24 admin | Enviar por e-mail Hits para esta publicação: 155
Todas as megafusões, como da Perdigão-Sadia, foram casuais, embora com a simpatia do governo
Por Antônio Machado
cidadebiz.df@diariosassociados.com.br
A decisão da Perdigão de engolir a Sadia, com a digestão agora à espera de aprovação dos órgãos de defesa da concorrência, começa a ser processada como resultado de uma tendência de megafusões com o amparo de uma política deliberada do governo operada pelo BNDES, o Banco Nacional de Desenvolvimento e Social. É isso. E não é.
O conceito de adensamento de grupos industriais em alguns setores da economia considerados estratégicos para o desenvolvimento ou em condições de disputar liderança internacional é diretriz informal de governo, já que a sua implementação ainda não aconteceu.
Os casos relatados, como o atual na área de comida processada, se deram mais por razões particulares às empresas que por indução de política industrial. Ela persegue esse alvo, mas há dificuldades - a maior das quais é a mais prosaica: a carência de empresários com disposição empreendedora e orientação focada na produção em vez de resultados financeiros de médio prazo, tipo comprar o concorrente, maximizar as sinergias, criar valor para os investidores e vender.
Essa é a motivação de boa parte das fusões e aquisições ocorridas fora do circuito da política industrial, normalmente lideradas por fundos de investimento de private equity, ou ativos privados, em geral capitalizados com dinheiro externo de outros fundos e prazo para desinvestimento de sete a 10 anos. Houve muitos negócios com tal perfil entre 2007 e 2008, durante o boom da bolsa de valores, sobretudo nas áreas de construção civil e de usinas de álcool.
Não foi uma boa experiência: nem o fundo brasileiro tinha recurso próprio para os investimentos nem seus associados externos. Ambos operam, conforme a praxe nesse mercado de aquisições, alavancados, ou seja, tomando dívida. Dependem de mercados altistas para darem curso a suas estratégias.
Mercado em baixa traz como seqüela os saques nos fundos e maiores exigências para o investidor alavancado. Mercado em colapso, como depois de setembro, então, é a ruína do modelo. Construção civil e etanol foram os setores mais abatidos pela crise externa por isso.
Frustração renovadora
A quebra do padrão de crescimento da economia alavancada a dívida e furor financeiro também avariou várias empresas brasileiras que operavam no mercado futuro de câmbio, onde buscavam proteção, ou hedge, para contratos em dólar de exportações ou dívidas externas.
O mercado virou, o dólar disparou e elas, que apostavam no real forte, foram à breca, com dívidas que chegam a bilhões de reais, no caso da Sadia e da Aracruz - outra empresa engolida por rival, mas como resultado de negociação que antecedia as suas perdas.
Trambiques em termos
Nenhum desses movimentos está claro para muita gente, seja o que se apresenta como fusão da Sadia à Perdigão, seja a absorção da Aracruz pelo braço de celulose da Votorantim. O presidente Lula já chamou as perdas nos futuros cambiais de coisa de “trambiqueiros”.
Foi o que disse na Turquia, semana passada. No fundo, as empresas estavam sintonizadas com a política do governo, que sustentava o real forte, e tentavam aproveitar-se disso via contratos de hedge, que tinham, na outra ponta, fundos e bancos apostando no contrário - na desvalorização do real. O potencial de altos ganhos as levou a sublimar a intenção original do hedge, além de virar uma forma de manter as exportações com o câmbio gravoso.
Interesse só privado
A Sadia caiu no prato da Perdigão porque suas perdas se tornaram insustentáveis, não porque o governo as orientou a agir assim. No caso da Aracruz, acionistas de seu grupo de controle queriam sair do negócio, e a Votorantim, entrar. Noutro caso, a absorção da BrT pela Oi, sócios das duas também queriam vender suas ações. Além disso, um deles, o Banco Opportunity, de Daniel Dantas, estava em conflito com os fundos de pensão de estatais, maiores investidores de longo prazo no país, controladores da BrT. Havia um impasse.
Nesses casos, o BNDES entrou na transação ou porque havia aquelas perdas cambiais a financiar, sob pena de o lado fraco sucumbir, ou porque era estratégico manter o controle em mãos nacionais. Fundos de pensão, por sua vez, já estavam nessas sociedades, como na BrT e Perdigão, que controlam. Por fim, não por último, tais operações são investimentos alternativos no novo cenário de Selic em queda.
O que se constata é que esses negócios aconteceram por acidente e não por indução, embora o governo não fosse antipático à causa.
Mais briga de Dantas
Aliás, o banqueiro Daniel Dantas nem bem conseguiu safar-se das pendengas na BrT, livrando ainda um bom dinheiro pelo seu pequeno naco de ações da operadora, e já começa a criar outra quizila. O alvo agora é a Vale, da qual era acionista juntamente com o Bank America, que se foi, mas ele manteve uma nesga do capital.
Dantas contesta o acordo pelo qual a Vale encerrou o dissídio com a CSN por conta de suposto direito sobre a mina Casa de Pedra, da siderúrgica, do tempo em que ambas tinham participações acionárias cruzadas. Seus métodos só fazem crescer a lista de desafetos, que inclui como mais notório o delegado Protógenes Queiroz.
Data: 26/05/2009
Fonte: Correio Brasiliense - DF
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